sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ministerial

Este texto não tendo a pretensão de se equiparar aos textos de "Conversa da Treta", foi escrito a pensar em actores como José Pedro Gomes e António Feio. A morte deste último faz com que lhe preste esta singela homenagem.

Ministerial

Tone- Ai, pá, tou preocupado.

Quim- Então, com o quê?

Tone- Eh, pá, sei lá. Apetece-me preocupar-me. Homem que é homem tem de ter preocupações. O aumento do défice, por exemplo, é uma preocupação que eu tenho.

Quim- Os défices tão sempre a aumentar, tão. Andam praí tantos!

Tone- A minha mulher é que pensa que eu sou parvo, que não percebo nada destas coisas de economia... Sei muito bem que quanto mais gasto mais teso fico.

Quim- E um gajo depois de entesar...

Tone- Eu fico triste, pá. Quando enteso fico triste como a noite. E a culpa é da minha mulher. A maior parte das vezes é por culpa dela que enteso.

Quim- (à parte); Eu também fico meio teso.

Tone- Como?!

Quim- Como o quê?

Tone- O quê?

Quim- O quê?

Tone- O quê, o quê?

Quim- Ahn?

Tone- Ahn, o quê?

Quim- Sei lá.

Pausa.

Tone- Já viste essa coisa da camada de ozono?

Quim- Não, pá. Por cima de nós tem mesmo um buraco enorme.

Tone- (olhando para cima); É mesmo; nunca tinha reflectido nesse caralho. Eu via nos telejornais, na rádio, todo o mundo a falar do buraco do ozono e pensava cá para mim: "Onde caralho está esse ozono?" Agora entendi.

Quim- Eu já pensei era se não dava para remendar essa merda. Arranjava-se aí umas costureiras... A mão de obra é barata e tudo, pá. Ficava por uma pechincha.

Tone- Inteligente, Quim! As coisas que tu tiras dessa cabeça!

Quim- Isso era como quem remendava umas calças. Então tá farto de fechar confecções, até se empregava algumas pessoas.

Tone- Tás a ver, Quim, já estás a criar emprego. Pá, tu davas um bom ministro.

Quim- Sério?!

Tone- Então não davas! Tu tens ideias... Tens caneta?

Quim- Tenho.

Tone- É só assinar despachos e essas merdas.

Quim- Assim tão fácil?

Tone- Foda-se, ò Quim, que é que tu querias que eles fizessem mais? Os gajos já matam a cabeça a trabalhar, Quim.

Quim- E não é preciso ter estudos?

Tone- Estudos pra quê, Quim? Estudos pra quê? Sabes escrever o teu nome?

Quim- Sei.

Tone- É o suficiente. É por isso que eu sou contra a escola. Um gajo mata a cabeça anos e anos com tabuadas, fracções, equações, fórmulas químicas e do que é que precisa? De saber escrever o nome. Basta saber escrever o nome que um gajo já se sente mais homem.

Quim- Eu quando aprendi a assinar com a emoção fodi os cadernos todos lá em casa.

Tone- É uma sensação boa, é. Um gajo pega na caneta e zau.

Quim- Já assinaste muitas vezes?

Tone- O quê?! Se eu já assinei muitas vezes?! Eu tou sempre a assinar. A minha mulher sabe-o bem. Todos dias lá vai uma rubrica.

Quim- Todos dias?!

Tone- Que foi? Ficaste admirado? Um gajo tem de treinar. Eu tenho orgulho na minha
assinatura.
Quim- E isso de ser ministro?

Tone- O que é que tem?

Quim- O que é que tenho de fazer para ser ministro?

Tone- Nada, Quim, nada. Quanto menos fizeres melhor, Quim. Os ministros não fazem nada, Quim. Eles pensam as coisas, Quim. Só tens de reflectir. Mais nada, Quim. Pensavas o quê? Que ias pegar em pesos ou acarretar baldes de massa? Um ministro tem de pensar, Quim. Eu sei que é um trabalho duro e mal pago, mas é compensador representar o país, catano.

Quim- E ouvir o hino no relvado deve ser emocionante.

Tone- No relvado?

Quim- Como os jogadores de futebol.

Tone- Mas um ministro não trabalha nos relvados.

Quim- Nem o do desporto?

Tone- Nem o do desporto.

Quim- Deve ser mesmo aborrecido ser ministro.

Tone- Falas do tempo. Nada é mais relaxante que falar do tempo. " Olá, como está? Tá frio hoje, não é? Às vezes faz frio." É a conversa mais frequente entre os ministros. Então quando se encontram com os de outros países, da Inglaterra, por exemplo, é assim: "Hello! How are you? It´s cold, ah?" Com o da França dizem: "Il fait froid", e abanam a cabeça. Sim, sim, yes, yes, oui, oui...

Quim- Que chatice de trabalho, Tone!

Tone- É o que se pode arranjar, Quim. Com tanto desemprego querias o quê? Trabalhar nas minas? Não falta quem queira trabalhar à sombra, pá. São trinta cães a um osso. Isso são empregos pros filhos de fulano tal, sobrinhos de cicranos; gente com um quociente de conhecimentos acima da média.

Quim- Por falar em quociente, nunca entendi muito bem essa porra de quociente de inteligência, Tone.

Tone- E tás à espera que eu te explique? Tás à espera que eu te explique?

Quim- Se pudesses...

Tone- Pois muito bem...

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